Testosterona: é a solução para a libido na menopausa?

A menopausa traz uma série de mudanças hormonais que podem impactar o desejo sexual. Muitas mulheres relatam uma queda na libido e buscam formas de recuperar o interesse e o prazer nas relações. Nesse contexto, a testosterona vem sendo cada vez mais discutida como uma possível solução.

Mas será que a reposição desse hormônio realmente melhora o desejo sexual feminino? O que a ciência diz sobre isso? E será que a libido depende apenas dos hormônios?

Testosterona na mulher: um hormônio essencial, mas não único

Apesar de ser comumente associada aos homens, a testosterona também é fundamental para o corpo feminino. Produzida pelos ovários e glândulas suprarrenais, ela influencia a massa muscular, a energia, o humor e o desejo sexual.

Os níveis de testosterona começam a cair gradualmente a partir dos 30 anos e continuam diminuindo com o tempo. No entanto, a relação entre essa queda e a redução da libido não é direta. Pesquisas mostram que algumas mulheres mantêm um desejo sexual satisfatório mesmo com níveis muito baixos de testosterona, enquanto outras apresentam perda da libido apesar de terem níveis normais. Isso sugere que a sexualidade feminina é regulada por múltiplos fatores e não apenas pelos hormônios.

A menopausa deve ser vista como uma síndrome, com mais de 30 sintomas que podem variar de mulher para mulher, e a libido faz parte desse cenário mais amplo. Além dos hormônios, aspectos emocionais, sociais e físicos desempenham um papel crucial no desejo sexual.

O que a ciência diz sobre a libido feminina?

A reposição de testosterona para mulheres na pós-menopausa tem sido estudada principalmente em casos de desejo sexual hipoativo, um transtorno caracterizado pela perda persistente do desejo, acompanhada de sofrimento e impacto na qualidade de vida.

Os estudos mais bem conduzidos indicam que a testosterona pode melhorar a libido em cerca de 50% das mulheres que a utilizam, ajudando na excitação, no prazer e na frequência de relações sexuais satisfatórias. No entanto, esses efeitos são súteis e não garantidos para todas.

Além disso, muitas mulheres relatam outros benefícios, como mais energia, disposição e clareza mental. Contudo, não há evidências científicas sólidas de que a testosterona tenha um impacto direto sobre o humor ou a cognição. Estudos controlados mostram que mulheres que receberam placebo também relataram esses benefícios, o que indica que parte dos efeitos pode estar relacionada à sensação de estar recebendo um tratamento e não necessariamente à ação do hormônio.

Outra consideração importante é que o desejo sexual feminino é muito mais complexo do que apenas níveis hormonais. Fatores como alterações emocionais, fadiga, dificuldade de concentração e sensação de sobrecarga são comuns na menopausa e podem afetar diretamente a libido. Isso reforça a importância de um olhar amplo sobre o desejo feminino.

Quando a reposição faz sentido?

A reposição de testosterona pode ser considerada em mulheres na pós-menopausa que apresentam desejo sexual hipoativo diagnosticado e que não responderam a outras abordagens.

Entretanto, não há produtos específicos aprovados para uso feminino na maioria dos países, o que dificulta a prescrição segura. Entre as opções disponíveis, o gel transdérmico de testosterona, em doses ajustadas para mulheres, é a mais recomendada. Já os implantes hormonais (pellets) não são recomendados, pois liberam doses elevadas e irregulares do hormônio, podendo causar efeitos colaterais indesejáveis e, em alguns casos, irreversíveis.

Entre os possíveis efeitos colaterais do uso inadequado de testosterona estão:

Crescimento de pelos no rosto e no corpo

Engrossamento da voz (irreversível)

Queda de cabelo no couro cabeludo

Aumento do clitóris

Acne e oleosidade excessiva na pele

Alterações de humor, como irritabilidade e agressividade

Além disso, doses elevadas e prolongadas podem aumentar o risco de sangramentos irregulares, espessamento do endométrio e possíveis complicações metabólicas.

Portanto, a reposição deve ser feita somente com acompanhamento médico e dentro dos níveis fisiológicos femininos.

O que mais pode ajudar na libido?

A reposição hormonal, quando indicada, pode ser uma ferramenta, mas não é a única solução para melhorar o desejo sexual. Mudanças no estilo de vida são fundamentais para a saúde e bem-estar nessa fase. Algumas estratégias que podem ajudar incluem:

  1. Terapia com estrogênio

Se houver sintomas como secura vaginal e dor nas relações, o uso de estrogênio vaginal pode ser suficiente para melhorar o prazer sexual.

  1. Exercício físico regular

Atividades como musculação e exercícios aeróbicos melhoram a circulação, aumentam a energia e reduzem o estresse, fatores que influenciam diretamente a libido.

  1. Alimentação equilibrada

Dieta rica em nutrientes e antioxidantes pode favorecer o equilíbrio hormonal e a saúde cerebral, ajudando no bem-estar geral. A dieta do Mediterrâneo tem efeitos positivos no metabolismo e na redução do risco de depressão, o que pode ter um impacto indireto na libido.

  1. Sono de qualidade

A privação de sono afeta os neurotransmissores ligados ao prazer e ao desejo. Mais da metade das mulheres na perimenopausa dorme menos de 7 horas por noite, o que pode agravar sintomas como fadiga e irritabilidade.

  1. Terapia sexual e suporte emocional

O desejo sexual feminino é fortemente influenciado por fatores emocionais e pelo relacionamento com o parceiro. Terapia sexual e aconselhamento podem ajudar mulheres a resgatarem a conexão com o próprio corpo e com a sexualidade.

Conclusão: testosterona pode ajudar, mas não é uma solução mágica

A reposição de testosterona pode ser uma estratégia para melhorar a libido na menopausa, mas seus efeitos são limitados e variam entre as mulheres. Como a sexualidade feminina envolve muitos fatores além dos hormônios, é essencial considerar uma abordagem mais ampla, incluindo ajustes no estilo de vida e suporte emocional.

Se a libido mudou na menopausa e isso está impactando sua qualidade de vida, o primeiro passo é buscar um especialista para avaliar as melhores estratégias para o seu caso.

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.

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Elisa Nico

Endocrinologista especializada em obesidade, tireoide, menopausa e bem-estar.