Mounjaro: vou precisar usar para sempre? O que os novos estudos mostram sobre a manutenção da perda de peso

Depois de emagrecer com Mounjaro, é possível reduzir a dose ou interromper o tratamento? Entenda o que mostram os estudos SURMOUNT-MAINTAIN e ATTAIN-MAINTAIN.

Mounjaro: vou precisar usar para sempre? O que os novos estudos mostram sobre a manutenção da perda de peso

Uma das perguntas que mais escuto no consultório é:

“Dra., quando eu atingir meu peso ideal, vou precisar continuar usando o Mounjaro?”

É uma dúvida totalmente compreensível.

Afinal, ninguém imagina tomar um medicamento por muitos anos quando inicia um tratamento para emagrecer.

Mas existe um detalhe importante: o objetivo não é apenas perder peso. É conseguir mantê-lo.

Até pouco tempo, essa resposta era baseada principalmente na experiência clínica e em estudos que mostravam que interromper o tratamento levava ao reganho de peso. Agora, dois grandes estudos publicados em 2026 trouxeram uma resposta muito mais refinada.

Eles investigaram justamente o que acontece depois que o paciente atinge um platô de peso.

As conclusões mudam a forma como pensamos o tratamento da obesidade.

O maior desafio não é emagrecer. É manter o resultado.

Perder peso provoca uma série de adaptações no organismo.

Quando o corpo emagrece:

  • o gasto energético diminui;

  • hormônios relacionados ao apetite aumentam;

  • a sensação de fome tende a voltar;

  • o organismo passa a defender o peso anterior.

Isso acontece porque a obesidade é uma doença crônica, e não simplesmente uma consequência de escolhas individuais.

É justamente por isso que tantas pessoas recuperam peso após interromper um tratamento que estava funcionando.

Durante muito tempo, a grande pergunta era:

Será que depois de emagrecer podemos diminuir a intensidade do tratamento?

Os estudos SURMOUNT-MAINTAIN e ATTAIN-MAINTAIN foram desenhados exatamente para responder essa questão.

O estudo SURMOUNT-MAINTAIN: reduzir a dose funciona?

O SURMOUNT-MAINTAIN acompanhou adultos com obesidade que utilizaram tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) durante 60 semanas até atingirem um platô de perda de peso.

Depois disso, os participantes foram divididos em três grupos:

  • continuar na dose máxima tolerada;

  • reduzir para 5 mg;

  • interromper o tratamento (placebo).

Foi a primeira vez que um estudo clínico avaliou se uma dose menor seria suficiente para manter os resultados.

O que aconteceu após mais um ano?

Os resultados foram bastante claros.

Quem manteve a dose máxima apresentou o melhor resultado.

Esses pacientes preservaram 96,5% da perda de peso conquistada, praticamente sem ganhar peso novamente.

Reduzir para 5 mg também funcionou, mas não para todos.

Os participantes mantiveram aproximadamente 68% da perda de peso inicial.

Na prática, houve um reganho médio de cerca de 6 kg ao longo de um ano.

Mesmo assim, esse desempenho foi muito superior ao observado em quem interrompeu completamente o tratamento.

Interromper a medicação levou ao maior reganho.

Os pacientes que trocaram a tirzepatida por placebo preservaram apenas 42,8% da perda inicial.

Além disso:

  • 67% precisaram voltar a usar tirzepatida como medicação de resgate devido ao importante reganho de peso.

Outro dado chama bastante atenção.

Quando os pesquisadores analisaram quem conseguiu manter pelo menos 80% da perda de peso, encontraram:

  • 77,5% dos pacientes que permaneceram na dose máxima;

  • 42,4% dos que reduziram para 5 mg;

  • apenas 10,4% daqueles que interromperam o tratamento.

Ou seja, reduzir a dose pode ser uma estratégia válida para alguns pacientes. Suspender completamente, na maioria dos casos, não foi.

O estudo ATTAIN-MAINTAIN: é possível trocar o injetável por um comprimido?

Outra dúvida muito frequente é:

“Se eu não quiser continuar com a injeção, existe outra alternativa?”

Foi exatamente isso que o estudo ATTAIN-MAINTAIN avaliou.

Os pesquisadores acompanharam pessoas que haviam emagrecido com:

  • tirzepatida;

  • ou semaglutida.

Depois do platô de peso, elas foram randomizadas para trocar o tratamento injetável pela orforgliprona, um agonista oral do receptor de GLP-1, ou receber placebo.

Os resultados foram animadores

Após um ano:

Quem vinha da semaglutida

Manteve aproximadamente 79% da perda de peso.

Na prática, o ganho médio foi inferior a 1 kg.

Quem vinha da tirzepatida

Manteve cerca de 75% da perda de peso.

O reganho médio foi próximo de 5 kg.

Apesar desse pequeno aumento, os pacientes permaneceram muito melhores do que aqueles que interromperam completamente o tratamento.

Além disso, os benefícios sobre pressão arterial, circunferência abdominal, perfil lipídico e controle metabólico também foram preservados em grande parte.

O que esses estudos realmente mudam na prática?

Talvez o maior ensinamento dessas pesquisas seja este:

Não existe uma única estratégia de manutenção para todos os pacientes.

Até pouco tempo, a conversa costumava ser apenas entre duas opções:

  • continuar;

  • ou parar.

Agora sabemos que existe um terceiro caminho:

individualizar.

Dependendo da resposta clínica, pode fazer sentido:

  • manter a dose máxima;

  • reduzir a dose;

  • migrar para outro medicamento;

  • ou, no futuro, utilizar terapias orais quando estiverem disponíveis.

Tudo depende do contexto de cada pessoa.

Então vou precisar usar Mounjaro para sempre?

Essa pergunta não possui uma resposta universal.

O que os estudos mostram é algo diferente.

A obesidade continua existindo mesmo depois que o peso melhora.

Quando o tratamento é interrompido, a tendência biológica é que o organismo tente recuperar parte do peso perdido.

Isso não significa que todas as pessoas precisarão usar exatamente o mesmo medicamento, na mesma dose, para sempre.

Significa que a manutenção da doença também precisa de tratamento.

Da mesma forma que ajustamos medicamentos para hipertensão, colesterol ou diabetes ao longo dos anos, o tratamento da obesidade também pode ser ajustado conforme a evolução clínica.

O importante é compreender que o fim do emagrecimento não representa o fim do tratamento.

Na verdade, é nesse momento que começam as decisões mais importantes.

O que ainda não sabemos?

Apesar dos resultados extremamente relevantes, algumas perguntas permanecem abertas.

Os estudos não compararam diretamente a troca para orforgliprona com a continuidade da tirzepatida na dose máxima, o que impede afirmar qual estratégia é superior.

Além disso:

  • o acompanhamento foi de apenas um ano;

  • a maioria dos participantes não tinha diabetes;

  • ainda precisamos de estudos mais longos para entender como essas estratégias se comportam ao longo de vários anos.

Mesmo assim, essas pesquisas representam um marco importante na medicina da obesidade, pois são as primeiras a responder, com alto nível de evidência, o que fazer depois que o paciente atinge o peso desejado.

Conclusão

Durante muito tempo, a pergunta era:

“Como perder peso?”

Hoje, a medicina começa a responder uma questão ainda mais importante:

“Como manter essa perda de peso por muitos anos?”

Os estudos SURMOUNT-MAINTAIN e ATTAIN-MAINTAIN mostram que reduzir a dose ou migrar para um tratamento oral pode ser uma alternativa para alguns pacientes, mas também deixam uma mensagem clara:

A interrupção completa do tratamento continua sendo a estratégia com maior risco de reganho de peso.

Cada decisão deve ser tomada de forma individualizada, considerando eficácia, tolerabilidade, preferência do paciente, custo e risco de recorrência da obesidade.

Mais do que discutir quando parar, talvez a pergunta correta seja:

Qual é a melhor estratégia para manter os resultados que você conquistou?

Quer entender mais sobre o tratamento da obesidade?

Acompanhe outros conteúdos do blog, onde explico, com base nas evidências científicas mais recentes, como funcionam medicamentos como Mounjaro, Wegovy e as novas terapias em desenvolvimento para obesidade.

Se você está em tratamento ou deseja iniciar uma abordagem personalizada para perda e manutenção do peso, agende uma consulta. O acompanhamento individualizado é fundamental para definir a melhor estratégia em cada fase da jornada.

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.

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Elisa Nico

Endocrinologista especializada em obesidade, tireoide, menopausa e bem-estar.