Quem usa canetas para emagrecer precisa suplementar vitaminas? Entenda quando isso é necessário e quais pacientes merecem uma avaliação nutricional mais cuidadosa.
Quem usa as canetas para emagrecer precisa tomar vitaminas?
Essa é uma das dúvidas que mais escuto no consultório.
A lógica parece simples: se a medicação diminui a fome, a pessoa passa a comer menos. Se come menos, será que não está ingerindo menos vitaminas e minerais?
A resposta é: depende.
Nem todo paciente que usa agonistas do GLP-1, como semaglutida (Ozempic® e Wegovy®) ou tirzepatida (Mounjaro®), precisa tomar suplementos vitamínicos.
Mas também é verdade que alguns pacientes apresentam um risco maior de desenvolver deficiências nutricionais e merecem acompanhamento mais próximo.
Um consenso internacional publicado em 2026 pela European Association for the Study of Obesity (EASO), em parceria com especialistas em nutrição e psicologia, trouxe orientações importantes sobre esse assunto.
E a principal mensagem talvez seja diferente do que muita gente imagina.
O problema não é a caneta. É o que acontece com a alimentação.
Os medicamentos à base de incretinas funcionam reduzindo a fome, aumentando a saciedade e diminuindo o chamado food noise, aqueles pensamentos constantes sobre comida.
Isso é extremamente positivo para o tratamento da obesidade.
O desafio é que, em algumas pessoas, essa redução do apetite pode ser tão intensa que a alimentação perde qualidade.
Não porque a medicação “rouba” vitaminas do organismo.
Mas porque a pessoa passa a ingerir menos alimentos e, muitas vezes, menos variedade.
É aí que o risco aparece.
Comer menos não significa, obrigatoriamente, faltar vitaminas
Uma pessoa pode consumir menos calorias e, ainda assim, manter uma alimentação rica em nutrientes.
Por outro lado, também pode acontecer o oposto.
Alguns pacientes acabam:
pulando refeições;
vivendo de pequenas “beliscadas”;
escolhendo apenas alimentos considerados “leves”;
reduzindo demais proteínas;
evitando frutas, verduras ou legumes por desconforto gastrointestinal.
Quando esse padrão se mantém por semanas ou meses, o risco de inadequação nutricional aumenta.
Por isso, o consenso chama atenção para algo importante: a qualidade da alimentação continua sendo fundamental durante o tratamento.
Quais nutrientes merecem mais atenção?
O consenso recomenda atenção especial principalmente para:
proteínas;
ferro;
vitamina B12;
folato;
vitamina D;
cálcio.
Dependendo da alimentação, também pode ser necessário avaliar outros micronutrientes.
Isso não significa que todos desenvolverão deficiência.
Significa apenas que esses nutrientes merecem ser observados em pacientes com maior risco.
Quem merece uma avaliação nutricional mais cuidadosa?
Nem todos os pacientes apresentam o mesmo risco.
Segundo o consenso, merecem uma investigação mais detalhada pessoas que apresentam:
ingestão alimentar muito reduzida;
dieta pouco variada;
náuseas, vômitos ou diarreia persistentes;
perda de peso muito rápida;
cirurgia bariátrica prévia;
dietas vegetarianas ou bastante restritivas;
sinais clínicos como fadiga intensa, fraqueza ou queda importante de cabelo.
Nessas situações, a avaliação clínica e laboratorial pode ajudar a identificar possíveis deficiências antes que elas se tornem um problema.
Então vale a pena tomar vitaminas por prevenção?
Na maioria das vezes, não.
O consenso internacional não recomenda criar um “protocolo de vitaminas” para todos os pacientes que utilizam agonistas do GLP-1.
Isso porque a necessidade de suplementação depende de fatores individuais, como:
qualidade da alimentação;
quantidade de proteína ingerida;
sintomas;
exames laboratoriais;
velocidade da perda de peso;
presença de outras doenças.
Tomar suplementos sem necessidade dificilmente traz benefícios e, em alguns casos, pode até ser prejudicial.
Da mesma forma, deixar de identificar uma deficiência verdadeira também pode comprometer a saúde.
O objetivo é encontrar o equilíbrio.
Antes de pensar em suplementos, pense na alimentação
O consenso reforça que algumas medidas simples costumam trazer mais benefícios do que iniciar vitaminas indiscriminadamente.
Entre elas:
Priorize proteínas em todas as refeições
Elas ajudam a preservar a massa muscular durante o emagrecimento e aumentam a saciedade.
Mantenha variedade alimentar
Mesmo com menos fome, procure incluir verduras, legumes, frutas, cereais integrais e diferentes fontes de proteína ao longo da semana.
Não transforme a falta de fome em jejum involuntário
Ficar muitas horas sem comer pode dificultar o alcance das necessidades de proteínas, vitaminas e minerais.
Cuide da hidratação
A ingestão adequada de líquidos também faz parte do tratamento e ajuda no manejo de alguns efeitos gastrointestinais.
A suplementação deve ser individualizada
Talvez essa seja a principal mensagem do consenso.
Os medicamentos para obesidade mudaram profundamente o tratamento da doença, mas eles também mudam a forma como muitas pessoas se alimentam.
Por isso, o acompanhamento não deve se limitar ao peso na balança.
Avaliar composição corporal, ingestão de proteínas, qualidade da alimentação, sintomas e possíveis deficiências nutricionais fazem parte de um tratamento completo.
Nem todo paciente precisará de suplementos.
Mas aqueles que realmente precisarem se beneficiam muito mais de uma suplementação direcionada do que de um “combo de vitaminas” tomado por conta própria.
Conclusão
Usar Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro® ou outros medicamentos da mesma classe não significa automaticamente que você precise tomar vitaminas.
O que determina essa necessidade é o impacto que o tratamento teve na sua alimentação e no seu estado nutricional.
O foco não deve ser suplementar todos os pacientes, mas identificar quem realmente pode se beneficiar dessa estratégia.
Essa é uma abordagem mais segura, baseada em evidências e alinhada às recomendações do mais recente consenso internacional sobre terapias baseadas em incretinas.
Quer saber se você precisa suplementar?
Se você utiliza medicamentos para emagrecimento e percebe que está comendo muito pouco, tem sintomas persistentes ou ficou em dúvida sobre sua alimentação, vale a pena fazer uma avaliação individualizada.
Durante a consulta, é possível analisar sua ingestão alimentar, composição corporal, exames laboratoriais e definir se existe, ou não, necessidade de suplementação.
Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.