Quem tem diabetes tipo 1 pode usar Ozempic ou Mounjaro? Entenda possíveis benefícios, riscos e por que o uso exige acompanhamento médico.
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 nos últimos anos. Com isso, uma pergunta começou a aparecer também entre pessoas que vivem com diabetes tipo 1:
Quem tem diabetes tipo 1 pode usar medicamentos da classe dos GLP-1?
A resposta exige alguns cuidados.
Os agonistas do receptor de GLP-1 e também a tirzepatida, que atua nos receptores de GIP e GLP-1 não são aprovados para o tratamento do diabetes tipo 1. Isso significa que, quando utilizados nesse contexto, seu uso é considerado off-label.
Além disso, eles não substituem a insulina.
Ainda assim, estudos clínicos e dados da prática real vêm mostrando que esses medicamentos podem trazer benefícios para determinados adultos com diabetes tipo 1, especialmente quando existem sobrepeso, obesidade, resistência à insulina ou maior risco cardiovascular e metabólico.
E é justamente aí que essa discussão se torna interessante.
Por que usar um medicamento para obesidade em alguém com diabetes tipo 1?
Durante muito tempo, diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2 foram vistos como condições metabolicamente bastante distintas.
No diabetes tipo 1, existe destruição autoimune das células beta pancreáticas e deficiência de insulina. Por isso, a insulinoterapia continua sendo indispensável.
Mas ter diabetes tipo 1 não impede uma pessoa de desenvolver obesidade, hipertensão, alterações do colesterol ou resistência à insulina.
Na verdade, o excesso de peso tornou-se cada vez mais frequente nessa população.
Nos Estados Unidos, quase dois terços dos adultos com diabetes tipo 1 já apresentam sobrepeso ou obesidade.
E isso importa porque a combinação de diabetes tipo 1 com obesidade e resistência à insulina pode aumentar ainda mais o risco cardiometabólico.
O que é o chamado “diabetes duplo”?
O termo double diabetes, ou “diabetes duplo”, tem sido utilizado para descrever pessoas com diabetes tipo 1 que também desenvolvem características tradicionalmente associadas ao diabetes tipo 2, como:
excesso de peso ou obesidade;
resistência à insulina;
necessidade de doses mais altas de insulina;
hipertensão arterial;
alterações do colesterol e dos triglicerídeos.
Estima-se que esse fenótipo esteja presente em aproximadamente 25% a 50% das pessoas com diabetes tipo 1.
Não se trata de um novo tipo de diabetes. É uma maneira de reconhecer que uma pessoa com DM1 também pode apresentar alterações metabólicas que merecem tratamento específico.
Quem tem diabetes tipo 1 pode usar semaglutida ou tirzepatida?
Pode haver situações em que o endocrinologista considere essa estratégia, mas é importante reforçar:
o uso de GLP-1 no diabetes tipo 1 ainda é off-label.
Ou seja, medicamentos como semaglutida e tirzepatida não são atualmente aprovados especificamente para tratar o DM1.
Os grupos que potencialmente mais podem se beneficiar são adultos com diabetes tipo 1 que também apresentam sobrepeso ou obesidade, resistência à insulina ou risco cardiovascular-reno-metabólico elevado.
Estudos clínicos e dados do mundo real vêm mostrando resultados interessantes nessa população, incluindo:
redução do peso corporal;
diminuição da necessidade diária de insulina;
melhora de alguns parâmetros glicêmicos;
melhora de fatores de risco metabólico, como pressão arterial e perfil lipídico.
Mas existe uma diferença importante em relação ao uso desses medicamentos em pessoas sem diabetes tipo 1: é necessário ajustar cuidadosamente a insulina.
GLP-1 não substitui a insulina no diabetes tipo 1
Esse talvez seja o ponto mais importante deste artigo.
Uma pessoa com diabetes tipo 1 não pode simplesmente reduzir ou suspender a insulina porque começou a utilizar semaglutida, tirzepatida ou outro medicamento dessa classe.
Os GLP-1 podem reduzir o apetite, diminuir a ingestão alimentar, favorecer a perda de peso e reduzir a necessidade de insulina.
Consequentemente, as doses de insulina frequentemente precisam ser ajustadas para evitar hipoglicemia.
Mas reduzir demais, principalmente a insulina basal, também pode ser perigoso.
A insulina basal nunca deve ser suspensa por conta própria no diabetes tipo 1.
A deficiência importante de insulina pode levar à produção de cetonas e à cetoacidose diabética (CAD), uma complicação potencialmente grave.
Por isso, o tratamento exige um equilíbrio que precisa ser individualizado.
Por que o sensor de glicose se torna ainda mais importante?
O monitoramento contínuo da glicose (CGM) pode ter um papel fundamental nesse processo.
Ao iniciar um GLP-1, o médico pode analisar parâmetros como:
tempo na faixa-alvo, geralmente entre 70 e 180 mg/dL;
tempo abaixo de 70 mg/dL;
frequência e horário das hipoglicemias;
comportamento da glicose após as refeições;
necessidade diária total de insulina.
Essas informações ajudam a decidir quanto e quando reduzir as doses.
De maneira geral, a necessidade de insulina das refeições tende a diminuir mais do que a insulina basal, principalmente porque o paciente passa a comer menos e o esvaziamento gástrico pode ficar mais lento.
Para quem utiliza bomba de insulina ou sistemas automatizados de administração de insulina, as configurações também podem precisar ser revistas.
Esse é um dos motivos pelos quais iniciar esse tratamento sem acompanhamento adequado pode ser arriscado.
Náusea ou cetoacidose? Um cuidado particularmente importante no diabetes tipo 1
Náuseas, vômitos, redução do apetite e desconforto abdominal estão entre os efeitos adversos mais conhecidos dos medicamentos da classe dos GLP-1.
O problema é que alguns desses sintomas também podem aparecer na cetoacidose diabética.
Em uma pessoa com diabetes tipo 1, portanto, não é seguro presumir automaticamente que náusea ou vômitos sejam apenas “efeito da caneta”.
Especialmente quando os sintomas aparecem junto com glicose elevada, é importante avaliar a presença de cetonas.
Quando disponível, a medição do beta-hidroxibutirato no sangue é preferível à pesquisa de cetonas na urina.
E existe uma regra que merece ser repetida:
estar comendo pouco, com náuseas ou até vomitando não significa que uma pessoa com diabetes tipo 1 possa simplesmente deixar de aplicar a insulina basal.
Como reduzir os efeitos colaterais dos GLP-1?
A tolerabilidade costuma ser melhor quando o medicamento é iniciado na menor dose e aumentado gradualmente.
Nem todo paciente precisa avançar rapidamente para as doses máximas.
A titulação pode ser individualizada de acordo com dois fatores: resultado e tolerabilidade.
Algumas estratégias também podem ajudar:
fazer refeições menores;
comer mais devagar;
parar de comer ao perceber saciedade;
evitar refeições excessivamente gordurosas;
manter hidratação adequada;
evitar aumentar a dose enquanto houver sintomas gastrointestinais relevantes.
Se os efeitos adversos persistirem, pode ser necessário manter a dose por mais tempo, retornar à última dose tolerada ou reavaliar o tratamento.
Existem outros riscos além da náusea?
Sim.
Embora os efeitos gastrointestinais sejam os mais conhecidos, existem outras situações que merecem atenção.
A perda rápida de peso pode aumentar o risco de cálculos e inflamação da vesícula biliar.
Náuseas, vômitos e baixa ingestão de líquidos também podem causar desidratação e contribuir para lesão renal aguda, principalmente em pessoas que já apresentam doença renal ou utilizam determinados medicamentos.
Em pessoas com gastroparesia ou alterações da motilidade gastrointestinal, os sintomas também podem piorar.
Além disso, a redução importante do apetite e a busca por perda de peso exigem atenção especial em pacientes com histórico ou risco de transtornos alimentares.
Por isso, não basta perguntar se o paciente “pode tomar a caneta”. É necessário avaliar para quem o benefício realmente supera os riscos.
E durante a gravidez?
Os GLP-1 não devem ser utilizados durante a gestação.
Para medicamentos de administração semanal, a orientação apresentada pelos especialistas é de suspensão pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada.
Caso a gestação aconteça durante o tratamento, o medicamento deve ser suspenso e as equipes de endocrinologia e obstetrícia comunicadas.
Também não existem dados humanos suficientes para estabelecer segurança durante a amamentação; por isso, a recomendação apresentada é postergar o reinício até o término do aleitamento.
Perder peso também pode exigir ajustes de outros medicamentos
Existe outro detalhe pouco comentado.
Quando uma pessoa perde uma quantidade significativa de peso, medicamentos que não têm relação direta com o diabetes também podem precisar ser revistos.
Um exemplo é a levotiroxina, utilizada no tratamento do hipotireoidismo.
Uma dose adequada antes de uma grande perda de peso pode tornar-se excessiva posteriormente.
Por isso, o acompanhamento não deve olhar apenas para a balança ou para a glicose. Dependendo do caso, é necessário rever exames e outras medicações de uso contínuo.
Então os GLP-1 são o futuro do tratamento do diabetes tipo 1?
Ainda é cedo para afirmar isso.
Os resultados disponíveis são promissores, principalmente para adultos com diabetes tipo 1 e excesso de peso ou maior risco cardiometabólico.
Mas ainda faltam estudos robustos de longo prazo específicos para essa população, inclusive para determinar se os benefícios cardiovasculares observados em outras populações também ocorrerão no DM1.
Portanto, existem duas mensagens que precisam caminhar juntas:
os GLP-1 podem representar uma estratégia adjuvante interessante para algumas pessoas com diabetes tipo 1;
mas não são tratamento substituto da insulina, não estão aprovados especificamente para DM1 e exigem acompanhamento especializado.
O tratamento do diabetes tipo 1 está mudando
Durante décadas, praticamente toda a evolução do tratamento do diabetes tipo 1 esteve concentrada em melhorar a forma de administrar e monitorar a insulina.
Sensores de glicose, bombas e sistemas automatizados de administração de insulina mudaram profundamente esse cenário.
Agora, a medicina começa a discutir também como tratar melhor obesidade, resistência à insulina e risco cardiometabólico em quem vive com DM1.
Isso é particularmente importante porque controlar a glicose continua sendo fundamental — mas cuidar de uma pessoa com diabetes tipo 1 significa olhar além da hemoglobina glicada.
Peso, pressão arterial, colesterol, função renal, saúde cardiovascular, alimentação, atividade física e qualidade de vida também fazem parte desse cuidado.
E é justamente nesse contexto que os GLP-1 começam a ganhar espaço na discussão científica.
Está pensando em usar semaglutida ou tirzepatida e tem diabetes tipo 1?
Não inicie, suspenda ou modifique sua insulina por conta própria.
A indicação precisa considerar seu peso, controle glicêmico, histórico de hipoglicemias, doses atuais de insulina, dados do sensor, outras doenças e os objetivos do tratamento.
Uma avaliação endocrinológica individualizada é a melhor forma de entender se essa estratégia faz sentido para você e, principalmente, como utilizá-la com segurança.
Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.