GLP-1 na gravidez: o que os estudos mais recentes mostram sobre Ozempic, Wegovy e Mounjaro?

Mulheres que usam Ozempic, Wegovy ou Mounjaro podem engravidar? Veja o que os estudos mais recentes mostram sobre segurança na gestação.

A popularização de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro trouxe uma nova realidade para a saúde da mulher. Cada vez mais pacientes em idade fértil utilizam agonistas do receptor de GLP-1 para tratar obesidade ou diabetes tipo 2.

Com isso, uma dúvida tem se tornado cada vez mais comum no consultório:

O que acontece se uma mulher engravidar usando essas medicações?

A resposta curta é: ainda estamos aprendendo.

Mas os estudos mais recentes ajudam a entender melhor o cenário e trazem informações importantes para mulheres que planejam uma gestação ou que descobriram uma gravidez após o uso dessas medicações.

Por que existe tanta preocupação com os GLP-1 durante a gravidez?

Os agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, não foram desenvolvidos para uso durante a gestação.

Por isso, as recomendações atuais continuam orientando que essas medicações sejam suspensas antes da gravidez.

O problema é que muitas gestações não são planejadas.

Além disso, o uso desses medicamentos cresceu rapidamente entre mulheres jovens, tornando cada vez mais frequentes os casos de exposição inadvertida durante as primeiras semanas de gestação.

Até pouco tempo atrás, existiam poucas informações para orientar essas pacientes.

O que os estudos mais recentes encontraram?

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a analisar milhares de gestações envolvendo mulheres que utilizaram agonistas de GLP-1 antes ou durante o início da gravidez.

A principal mensagem dos estudos é simples:

Até o momento, não foi observado um aumento claro de abortamentos, malformações congênitas ou outros desfechos fetais graves associado à exposição precoce aos medicamentos.

Isso não significa que os medicamentos foram considerados seguros para uso durante a gestação.

Significa apenas que os dados disponíveis são mais tranquilizadores do que se imaginava inicialmente.

Um estudo avaliou mais de 3.500 gestações

Uma das maiores análises disponíveis comparou mulheres que continuaram recebendo agonistas de GLP-1 no primeiro trimestre com mulheres que interromperam o tratamento após engravidar.

Os pesquisadores avaliaram:

  • Perda gestacional;

  • Crescimento fetal;

  • Peso ao nascer;

  • Malformações congênitas maiores.

Os resultados não mostraram aumento evidente desses riscos entre as mulheres que continuaram usando a medicação no início da gestação.

Entretanto, os autores destacam uma limitação importante: os intervalos de confiança ainda são amplos, o que significa que o número de casos disponíveis pode não ser suficiente para excluir completamente riscos menores.

Em outras palavras:

Os dados são tranquilizadores, mas ainda não definitivos.

E quanto ao ganho de peso durante a gravidez?

Outro estudo trouxe uma observação interessante.

Mulheres que tiveram exposição aos agonistas de GLP-1 no início da gestação apresentaram menor chance de ganhar menos peso do que o recomendado durante a gravidez.

Isso pode estar relacionado ao reganho de peso que costuma ocorrer após a interrupção dessas medicações.

Por outro lado, não foram observadas diferenças importantes no risco de hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia.

Esses resultados ainda precisam ser confirmados por pesquisas maiores.

Uma meta-análise encontrou resultados semelhantes

Uma revisão sistemática recente reuniu quase 37 mil gestações e comparou mulheres expostas aos agonistas de GLP-1 com mulheres que utilizaram outras terapias para diabetes.

Os pesquisadores observaram:

  • Menor risco de parto prematuro;

  • Melhores desfechos maternos globais;

  • Ausência de aumento detectável de malformações congênitas;

  • Ausência de aumento significativo de desfechos fetais adversos.

Mas é importante interpretar esses dados com cautela.

Como todos os estudos incluídos eram observacionais, não é possível afirmar que os benefícios observados foram causados diretamente pelos medicamentos.

Então os GLP-1 são seguros na gravidez?

Ainda não podemos afirmar isso.

Essa talvez seja a principal mensagem para pacientes e profissionais de saúde.

Os estudos atuais não identificaram sinais claros de aumento de risco, mas também não fornecem evidências suficientes para recomendar o uso dessas medicações durante a gestação.

Por esse motivo, as orientações atuais permanecem as mesmas:

  • Planejar a gravidez sempre que possível;

  • Suspender o medicamento antes da concepção;

  • Discutir individualmente cada caso com o médico responsável.

O que fazer se eu engravidar usando Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?

Se você descobriu uma gravidez enquanto utilizava uma dessas medicações, o mais importante é não entrar em pânico.

As evidências disponíveis até o momento não demonstram um aumento claro de malformações congênitas ou perda gestacional.

O ideal é procurar acompanhamento médico o mais cedo possível para avaliar o caso individualmente e definir a melhor estratégia para o restante da gestação.

Cada paciente apresenta um contexto diferente, especialmente quando existe diabetes, obesidade ou outras condições metabólicas associadas.

O que ainda precisamos descobrir?

Apesar do avanço recente das pesquisas, ainda existem perguntas sem resposta:

Qual é o momento ideal para interromper o tratamento?

Ainda não sabemos exatamente qual intervalo entre a suspensão do medicamento e a tentativa de engravidar oferece maior segurança.

Existem diferenças entre semaglutida e tirzepatida?

Os estudos atuais ainda não têm tamanho suficiente para responder essa questão com precisão.

Existem efeitos de longo prazo para os filhos?

Até o momento, os dados de acompanhamento são limitados.

Por isso, estudos de longo prazo continuam sendo fundamentais.

A mensagem mais importante

Os dados atuais são mais tranquilizadores do que muitas pessoas imaginam.

Mas tranquilizador não significa conclusivo.

Hoje, a melhor evidência disponível sugere que a exposição inadvertida aos agonistas de GLP-1 no início da gestação não parece aumentar de forma importante o risco de malformações ou outros desfechos graves.

Ainda assim, essas medicações continuam não sendo recomendadas durante a gravidez até que estudos mais robustos confirmem sua segurança.

A medicina está avançando rapidamente nessa área e provavelmente teremos respostas muito mais claras nos próximos anos.

Está usando Ozempic, Wegovy ou Mounjaro e pretende engravidar nos próximos anos?

Uma avaliação individualizada pode ajudar a planejar a gestação com mais segurança e tranquilidade.

Agende sua consulta para discutir estratégias de tratamento da obesidade, diabetes e planejamento reprodutivo de forma personalizada.

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.

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Elisa Nico

Endocrinologista especializada em obesidade, tireoide, menopausa e bem-estar.