Sua genética pode influenciar a resposta às canetas para emagrecer?

Novo estudo sugere que a genética pode influenciar a perda de peso e os efeitos colaterais das canetas para emagrecer.

As “canetas para emagrecer” transformaram o tratamento da obesidade nos últimos anos. Mas uma pergunta continua aparecendo no consultório:

“Por que algumas pessoas emagrecem muito com semaglutida ou tirzepatida… enquanto outras quase não respondem?”

Um novo estudo publicado na revista Nature sugere que parte dessa resposta pode estar na genética.

Os pesquisadores identificaram variantes genéticas associadas tanto à maior perda de peso quanto a um risco aumentado de náuseas e vômitos em pessoas que usam medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1.

Os achados ajudam a explicar algo que vemos diariamente na prática clínica: a resposta às canetas não é igual para todo mundo.

O que o estudo sobre genética e GLP-1 analisou?

O estudo utilizou dados de quase 28 mil pessoas que relataram uso de:

  • semaglutida;

  • tirzepatida;

  • Ozempic®;

  • Wegovy®;

  • Mounjaro®;

  • Zepbound®.

Os pesquisadores cruzaram:

  • informações genéticas;

  • quantidade de peso perdido;

  • presença de efeitos colaterais;

  • tempo de tratamento.

A ideia era entender se determinadas variantes genéticas poderiam influenciar:
a eficácia do tratamento
a tolerabilidade dos medicamentos.

A genética realmente pode influenciar a perda de peso?

Segundo o estudo, sim.

Os pesquisadores encontraram uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada a uma perda de peso um pouco maior.

Na prática:
👉 pessoas com determinadas variantes genéticas perderam mais peso, em média, durante o tratamento.

Mas existe um detalhe importante:

O efeito encontrado foi relativamente pequeno.

Isso significa que:
❌ não existe um “gene do emagrecimento”;
❌ nem um exame capaz de prever exatamente quem vai responder bem às canetas.

Ainda assim, os resultados reforçam que fatores biológicos individuais influenciam muito a resposta ao tratamento.

Por que algumas pessoas têm mais náuseas com as canetas?

O estudo também encontrou variantes genéticas associadas a:

  • náuseas;

  • vômitos;

  • maior sensibilidade gastrointestinal.

Curiosamente, algumas das variantes relacionadas à maior perda de peso também estavam associadas a mais efeitos colaterais.

Isso levanta uma hipótese interessante:

👉 Os mecanismos que aumentam a eficácia dos medicamentos podem ser os mesmos que aumentam os sintomas gastrointestinais.

Isso muda alguma coisa no tratamento hoje?

Ainda não de forma prática.

Neste momento, os achados não justificam:

  • exames genéticos de rotina;

  • mudança automática de medicação;

  • decisões clínicas baseadas apenas em genética.

Mas o estudo abre caminho para algo muito importante: a medicina de precisão aplicada ao tratamento da obesidade.

O futuro das canetas pode ser mais personalizado

Hoje, muitas decisões ainda acontecem por tentativa e ajuste:

  • qual medicamento usar;

  • qual dose escolher;

  • quão rápido aumentar;

  • quando trocar a estratégia.

No futuro, talvez possamos usar informações genéticas para prever:
✔️ maior chance de resposta;
✔️ risco aumentado de efeitos colaterais;
✔️ melhor velocidade de escalonamento;
✔️ medicamento mais adequado para cada perfil.

Isso pode tornar o tratamento mais eficiente, mais confortável e mais individualizado.

A resposta ao GLP-1 depende só da genética?

Não.

A genética provavelmente é apenas uma peça do quebra-cabeça.

A resposta às canetas também pode ser influenciada por:

  • alimentação;

  • sono;

  • composição corporal;

  • nível de atividade física;

  • resistência insulínica;

  • hormônios;

  • saúde emocional;

  • adesão ao tratamento;

  • velocidade de progressão da dose.

Além disso, sabemos que mulheres, em média, costumam perder mais peso do que homens em alguns estudos com GLP-1, algo que também pode ter relação hormonal e metabólica.

Isso ajuda a reduzir o estigma da obesidade

Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes do estudo.

Muitas pessoas acreditam que responder pouco ao tratamento significa:

  • falta de disciplina;

  • “erro” do paciente;

  • ausência de esforço.

Mas a obesidade é uma doença complexa e biologicamente regulada.

E estudos como esse mostram que diferenças individuais vão muito além da força de vontade.

O que ainda precisamos descobrir?

Apesar dos avanços, ainda existem muitas perguntas sem resposta:

  • Por que algumas pessoas recuperam mais peso após interromper o tratamento?

  • Por que algumas respondem melhor à tirzepatida do que à semaglutida?

  • Existe uma combinação ideal entre genética e estilo de vida?

  • Será possível prever quem terá mais efeitos colaterais?

Provavelmente veremos uma evolução rápida nessa área nos próximos anos.

Conclusão

As canetas para emagrecer representam um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade. Mas a resposta ao tratamento está longe de ser igual para todos.

O novo estudo publicado na Nature reforça que a genética pode influenciar tanto a perda de peso quanto os efeitos colaterais dos medicamentos baseados em GLP-1.

Ainda não chegamos ao ponto de personalizar completamente o tratamento com base no DNA. Mas estamos começando a entender que a medicina da obesidade do futuro provavelmente será cada vez mais individualizada.

E talvez a pergunta deixe de ser:
“qual caneta é melhor?”

Para se tornar:
👉 “qual tratamento funciona melhor para cada pessoa?”

Se você deseja uma avaliação individualizada, agende sua consulta para discutir a melhor estratégia para o seu caso.

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.

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Elisa Nico

Endocrinologista especializada em obesidade, tireoide, menopausa e bem-estar.