Novos estudos associam terapia hormonal na menopausa a menor risco de Alzheimer. Entenda os resultados e por que ainda é preciso cautela.
A terapia hormonal da menopausa pode proteger o cérebro contra a doença de Alzheimer?
Essa é uma pergunta que aparece cada vez mais nos consultórios e dois novos estudos trouxeram resultados que reacenderam essa discussão.
Os achados são interessantes: mulheres que utilizaram terapia hormonal apresentaram menor ocorrência de Alzheimer em algumas análises e, em outro estudo, foram encontrados menos sinais da doença no cérebro de mulheres que haviam utilizado estrogênio.
Mas existe uma diferença fundamental entre dizer que duas coisas estão associadas e afirmar que uma delas causou a outra.
E, neste caso, essa diferença muda completamente a interpretação dos resultados.
O que o novo estudo encontrou?
Um dos trabalhos analisou dados de 183.450 mulheres na pós-menopausa acompanhadas no UK Biobank por aproximadamente 13 anos.
Durante esse período, foram identificados 3.948 casos de demência.
De maneira geral, o uso de terapia hormonal esteve associado a menor risco de demência e doença de Alzheimer.
Mas o resultado ficou ainda mais interessante quando os pesquisadores separaram diferentes grupos de mulheres.
O benefício pareceu maior em alguns grupos
As associações foram mais fortes entre mulheres que:
passaram por menopausa cirúrgica;
eram portadoras do alelo APOE ε4, relacionado à maior predisposição para Alzheimer;
tiveram menor exposição ao estrogênio produzido pelo próprio organismo ao longo da vida.
Outro ponto chamou atenção: a idade de início da terapia hormonal pareceu importar.
O início entre aproximadamente 46 e 56 anos esteve associado à redução do risco de demência. O mesmo não foi observado quando o tratamento começou depois dos 56 anos.
Isso reforça uma hipótese que vem sendo estudada há anos: talvez os efeitos cerebrais da terapia hormonal dependem não apenas de usar ou não hormônios, mas também de quem usa e em que momento da vida o tratamento é iniciado.
Por que o estrogênio poderia influenciar o cérebro?
Existe plausibilidade biológica para essa hipótese.
O estrogênio participa de diferentes processos importantes para o funcionamento cerebral e parece estar relacionado à inflamação, à integridade da barreira hematoencefálica e ao metabolismo de proteínas envolvidas na doença de Alzheimer, como a beta-amiloide.
Na menopausa, os níveis de estrogênio caem de maneira importante.
Por isso, pesquisadores investigam há anos se a perda dessa exposição hormonal poderia participar das alterações cerebrais que acontecem com o envelhecimento e se a reposição em determinadas circunstâncias poderia modificar esse processo.
Mas uma hipótese biologicamente plausível não é suficiente para demonstrar que um tratamento previne uma doença.
Outro estudo encontrou menos sinais de Alzheimer no cérebro
Um segundo trabalho acrescentou uma informação particularmente interessante.
Mulheres que haviam utilizado estrogênio isoladamente apresentaram menos sinais relacionados à doença de Alzheimer no cérebro.
O estudo encontrou menor quantidade de alterações como depósito de beta-amiloide e também menor frequência de diagnóstico de demência.
A presença de dados obtidos diretamente do cérebro torna o resultado especialmente interessante para a pesquisa.
Ainda assim, os próprios pesquisadores são cautelosos: o estudo demonstra uma associação, e não prova que o estrogênio tenha sido responsável pela diferença encontrada.
Então a reposição hormonal previne Alzheimer?
Ainda não podemos afirmar isso.
Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda essa discussão.
Os novos estudos são observacionais.
Isso significa que os pesquisadores acompanharam e compararam mulheres que utilizaram ou não terapia hormonal, mas não decidiram aleatoriamente quem receberia o tratamento.
E isso abre espaço para vários fatores capazes de interferir no resultado.
Mulheres que fazem terapia hormonal, por exemplo, podem diferir das não usuárias em acesso aos serviços de saúde, nível socioeconômico, acompanhamento médico e outros comportamentos relacionados à saúde.
Portanto, encontrar menos Alzheimer entre as usuárias não significa necessariamente que a terapia hormonal tenha causado essa redução.
E o que os estudos anteriores mostraram?
É justamente aqui que a história fica mais complexa.
O famoso Women’s Health Initiative (WHI) encontrou aumento do risco de demência em mulheres que receberam terapia hormonal.
Mas existe uma ressalva importante: o braço que avaliou cognição estudou mulheres com 65 anos ou mais, portanto muito mais velhas do que aquelas que normalmente iniciam terapia hormonal atualmente.
Além disso, foram utilizadas formulações hormonais diferentes de muitas das opções hoje prescritas.
Por outro lado, o KEEPS, realizado posteriormente com mulheres mais jovens e terapias mais próximas das utilizadas atualmente, não demonstrou benefício nem prejuízo claro em relação à cognição ou aos marcadores cerebrais de Alzheimer.
É justamente por isso que a pergunta permanece em aberto.
O momento de iniciar a terapia hormonal pode fazer diferença?
Essa é uma das hipóteses mais interessantes levantadas pelas pesquisas atuais.
Talvez não exista uma resposta única para a pergunta:
“Terapia hormonal protege contra Alzheimer?”
A resposta pode depender da idade da mulher, do momento da menopausa, do tipo de menopausa, da predisposição genética, da formulação utilizada e de outros fatores individuais.
Os novos dados chamam atenção especialmente para mulheres que passaram por menopausa cirúrgica e para aquelas que iniciaram o tratamento mais próximas da transição menopausal.
Mas isso ainda precisa ser confirmado em estudos desenhados especificamente para demonstrar causa e efeito.
Devo fazer reposição hormonal para prevenir Alzheimer?
Hoje, não.
Os resultados atuais não justificam iniciar terapia hormonal exclusivamente com o objetivo de prevenir Alzheimer ou demência.
A terapia hormonal possui indicações bem estabelecidas, principalmente para o tratamento dos sintomas da menopausa, e a decisão de utilizá-la deve considerar idade, tempo desde a menopausa, sintomas, histórico clínico, contraindicações e preferências individuais.
Os novos estudos não mudam essa indicação.
O que eles fazem é levantar uma possibilidade muito interessante: talvez os efeitos da terapia hormonal sobre o cérebro sejam diferentes dependendo de quem recebe o tratamento e de quando ele é iniciado.
Essa pergunta ainda precisa ser respondida.
O que podemos concluir até agora?
A relação entre menopausa, estrogênio e saúde cerebral provavelmente é mais complexa do que simplesmente dizer que “reposição hormonal protege” ou “reposição hormonal aumenta o risco de demência”.
Os estudos mais recentes sugerem uma associação entre terapia hormonal e menor risco de Alzheimer em determinados grupos de mulheres, especialmente após menopausa cirúrgica e quando o tratamento é iniciado mais cedo.
Mas associação não é prevenção comprovada.
Para sabermos se a terapia hormonal realmente consegue reduzir o risco de Alzheimer, ainda precisamos de estudos capazes de demonstrar uma relação de causa e efeito.
Até lá, a mensagem mais importante é simples: não devemos iniciar terapia hormonal para prevenir Alzheimer com base nas evidências disponíveis hoje. Mas os novos dados ajudam a entender que idade, momento de início e perfil da mulher podem ser peças importantes dessa história.
Terapia hormonal deve ser individualizada
A decisão sobre fazer ou não terapia hormonal não deve ser baseada em uma única promessa de benefício.
Sintomas, idade, tempo de menopausa, histórico pessoal e riscos individuais precisam ser considerados em conjunto.
Se você está passando pela menopausa e tem dúvidas sobre terapia hormonal, converse com seu endocrinologista ou ginecologista para avaliar qual estratégia faz sentido para o seu caso.
Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.