SOP mudou de nome? Entenda o que é PMOS e por que especialistas querem abandonar o termo “ovários policísticos”

SOP agora pode passar a se chamar PMOS. Entenda por que especialistas defendem a mudança e o que isso muda no diagnóstico e tratamento.

A síndrome dos ovários policísticos (SOP) pode estar prestes a passar pela maior mudança conceitual das últimas décadas: o próprio nome da condição.

Em 2025, um consenso global publicado na revista científica The Lancet propôs substituir o termo “síndrome dos ovários policísticos” por síndrome ovariana metabólica poliendócrina (PMOS).

E não se trata apenas de uma troca de nomenclatura.

A mudança reflete uma transformação importante na forma como a ciência entende essa condição: hoje sabemos que a SOP vai muito além dos ovários, envolvendo metabolismo, hormônios, inflamação, resistência à insulina, fertilidade e saúde cardiovascular.

Por que querem mudar o nome da SOP?

Apesar de ser uma das condições hormonais mais comuns em mulheres, o nome “síndrome dos ovários policísticos” sempre gerou confusão.

Isso porque muitas mulheres acreditam que:

  • precisam ter “cistos” nos ovários para ter SOP;

  • qualquer cisto ovariano significa SOP;

  • a doença é apenas ginecológica;

  • o problema está restrito ao ovário.

Mas isso não é verdade.

Os chamados “ovários policísticos” da SOP não são cistos verdadeiros. Na realidade, tratam-se de múltiplos folículos pequenos que não completaram adequadamente o processo de ovulação.

Além disso, muitas mulheres com SOP:

  • nem apresentam ovários policísticos no ultrassom;

  • têm alterações metabólicas importantes;

  • apresentam resistência insulínica, aumento do risco cardiovascular e inflamação crônica de baixo grau.

Por isso, especialistas passaram a considerar o termo antigo limitado e até potencialmente enganoso.

O que significa PMOS?

O novo nome proposto é:

Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (PMOS)

Cada parte do nome tenta refletir melhor a complexidade da condição:

Ovariana

Porque a síndrome continua afetando a ovulação e a função ovariana.

Metabólica

Porque hoje sabemos que alterações metabólicas são centrais na doença:

  • resistência à insulina;

  • aumento da gordura abdominal;

  • maior risco de diabetes tipo 2;

  • maior risco cardiovascular;

  • disfunção metabólica associada à obesidade.

Poliendócrina

Porque a SOP envolve múltiplos sistemas hormonais:

  • insulina;

  • androgênios;

  • eixo hipotálamo-hipófise-ovário;

  • metabolismo energético;

  • hormônios relacionados ao apetite e adiposidade.

A SOP é uma doença metabólica?

Cada vez mais, sim.

Os estudos mais recentes mostram que a resistência à insulina parece ser um dos principais motores da síndrome, inclusive em mulheres sem obesidade.

Hoje sabemos que:

  • a SOP aumenta o risco cardiovascular;

  • mulheres com SOP têm maior risco de diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e hipertensão;

  • existe maior risco de síndrome metabólica e esteatose hepática;

  • alterações metabólicas podem aparecer cedo, ainda na adolescência.

Inclusive, revisões recentes mostraram aumento de até 2,5 vezes no risco cardiovascular em mulheres com SOP.

Isso ajuda a explicar por que muitas pacientes relatam:

  • dificuldade para emagrecer;

  • fome aumentada;

  • acúmulo de gordura abdominal;

  • fadiga;

  • compulsão alimentar;

  • dificuldade em manter resultados.

O que muda na prática para as pacientes?

Na prática, a mudança do nome tenta melhorar principalmente:

1. O diagnóstico precoce

Muitas mulheres ficam anos sem diagnóstico porque acreditam que:

  • não têm “cistos”;

  • menstruam algumas vezes;

  • não se encaixam no estereótipo clássico da SOP.

A nova nomenclatura reforça que a condição é muito mais ampla.

2. A visão metabólica da doença

A SOP deixa de ser vista apenas como um problema menstrual ou reprodutivo.

Isso é importante porque:

  • algumas mulheres procuram ajuda apenas pela acne ou pelos ciclos irregulares;

  • outras chegam apenas pela dificuldade de emagrecer;

  • algumas apresentam infertilidade;

  • enquanto outras desenvolvem alterações metabólicas silenciosas.

O tratamento da SOP também está mudando

Os estudos mais recentes mostram uma abordagem muito mais ampla e personalizada.

Hoje o tratamento pode envolver:

  • mudança de estilo de vida;

  • treinamento de força;

  • melhora do sono;

  • manejo da resistência insulínica;

  • metformina;

  • agonistas de GLP-1 em casos selecionados;

  • estratégias voltadas para fertilidade;

  • suporte psicológico e nutricional.

Além disso, pesquisas recentes sugerem que a SOP pode ter diferentes “subtipos”:

  • um perfil mais metabólico;

  • outro mais reprodutivo;

  • além de apresentações intermediárias.

Isso ajuda a explicar por que duas mulheres com SOP podem ter sintomas completamente diferentes.

A mudança já está valendo?

Ainda não oficialmente.

A implementação será gradual ao longo dos próximos anos, com previsão de incorporação às futuras diretrizes internacionais.

Até lá, o termo SOP continuará sendo amplamente utilizado.

Mas o mais importante talvez não seja apenas o novo nome, e sim a nova forma de enxergar a condição:
➡️ mais completa,
➡️ menos estigmatizada,
➡️ e mais alinhada ao que a ciência vem mostrando.

O principal recado

A SOP nunca foi apenas sobre ovários.

Ela envolve metabolismo, hormônios, inflamação, fertilidade e saúde cardiovascular ao longo da vida.

E talvez essa seja a principal razão pela qual tantas mulheres passaram anos ouvindo que “era só emagrecer” quando, na realidade, existia toda uma fisiopatologia hormonal e metabólica por trás dos sintomas.

Se você suspeita de SOP ou sente que seu corpo mudou sem explicação clara, uma avaliação individualizada pode fazer diferença no diagnóstico e no tratamento.

Este conteúdo é de caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Não se destina a prescrever ou recomendar qualquer tratamento específico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer medicação ou terapia.

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Elisa Nico

Endocrinologista especializada em obesidade, tireoide, menopausa e bem-estar.